Florestas: para salvá-las é preciso conhecer seu valor

Seria muito mais fácil entender o valor da floresta se nós compreendêssemos o mundo como os Yanomami. Para eles, as árvores mais altas sustentam o firmamento e sem as florestas o céu desabaria sobre o mundo. Mas nossa sociedade não acredita que o céu possa desabar, pelo menos literalmente, e só é capaz de compreender a importância de alguma coisa quando traduzida em cifras.

E é justamente desta fixação por cifras que vêm as grandes ameaças às florestas atualmente. De acordo com a Organização Internacional de Madeira Tropical (ITTO, em inglês), a elevação dos preços de alimentos e combustíveis são uma ameaça na Amazônia, Congo e Sudeste Asiático, onde estão as maiores áreas de matas tropicais do planeta. Sem calcular um valor monetário para as florestas, derrubá-las ainda vai continuar a ser encarado como um investimento maior do que preservá-la.

Para a ITTO, o valor da floresta pode ser traduzido no potencial madeireiro que ela mantém. Explorar este potencial de forma sustentável seria então a alternativa para conservá-la e ao mesmo tempo usá-la de forma lucrativa. O problema é o baixo preço da madeira tropical, que prejudica as iniciativas de certificação.

“Os preços da madeira são geralmente baixos ao mesmo tempo em que os preços dos alimentos e os biocombustíveis aumentam rapidamente”, afirma o vice-diretor da Fundação Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação Internacional, Jürgen Blaser, um dos autores do relatório. “Mas nos países ricos, os consumidores parecem dispostos a pagar significativamente mais elevados preços da madeira certificada ou com legalidade verificada”, completa.

O engenheiro florestal Niro Higuchi, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), concorda que a exploração sustentável da madeira é um caminho para preservar a floresta , inclusive na Amazônia. Para ele, a floresta é um recurso que deve ser utilizado com cuidados e em benefício de quem vive na região. Higuchi coordena estudos que buscam melhorar o aproveitamento da madeira retirada da floresta e desenvolver produtos com alto valor agregado.

Para ele, uma árvore pode valer muito mais do que dezenas de hectares explorados mesmo de forma sustentável, basta saber aproveitá-la. Ele cita o exemplo de instrumentos de madeira da Amazônia, que utilizam pouquíssima matéria-prima e podem custar mais de R$ 1.500,00. Higuchi faz uma comparação entre pratos de madeira, vendidos em lojas especializada em Manaus com o preço do metro cúbico de madeira nas serrarias. Um metro cúbico de boa madeira pode custar R$ 1.500,00. Com esta mesma quantidade de matéria-prima, podem ser produzidos mais de 500 pratos, vendidos cada um por R$ 100,00, num valor total de R$ 50.000,00.

O pesquisador não descarta a produção de madeira na Amazônia, mas critica a concessão de florestas públicas para a iniciativa privada. “Estamos oferecendo produto ao mercado, e com isto reduzindo o valor”, afirma. “A exploração deveria ser feita em propriedades particulares e não em terras públicas”, completa. Ele é um crítico da certificação, mas defende o cumprimento da legislação brasileira na exploração da madeira.

Manejo sustentável

Nos últimos cinco anos, áreas de florestas tropicais sob manejo sustentável cresceram 50%, segundo a ITTO. Mas 90% delas estão mal gerenciadas ou não tem nenhuma forma de administração. Iniciativas que remuneram os serviços ambientais e conservação da biodiversidade são vistos como alternativas para que a conservação das florestas seja mais atraente economicamente do que derrubá-las.

O relatório preparado pela ITTO e pela Organização Mundial de Alimentação (FAO) para a Cúpula de Brazzavile, República do Congo, em junho, apresenta uma série de dados que demonstra o desperdício atual e a incapacidade dos países que têm florestas de aproveitar seu potencial econômico. A perda de florestas, só na década passada, por exemplo, reduziu o total de carbono que estocam em 1,2 gigatoneladas, segundo estimativa publicada no relatório.

O ritmo de destruição nas três grandes florestas tropicais está caindo, conforme a publicação. Entre 2000 e 2010, segundo o relatório, 5,4 milhões de hectares de florestas foram derrubadas em média por ano, entre 2000 e 2010, um ritmo 24% menor do que na década anterior, quando 7,1 milhões de hectares de florestas eram destruídos por ano.

Infelizmente, a América do Sul contribuiu com a maior parte desta derrubada. Mais da metade do desmatamento de florestas tropicais no mundo ocorre na Amazônia. A região perdeu cerca de 3,6 milhões de hectares, por ano, de matas na década passada. No Sudeste Asiático, o ritmo de perda foi de 1 milhão de hectares anuais. E na Bacia do Congo, 700 mil hectares por ano.

O relatório indica ainda que não sabemos aproveitar estas florestas economicamente. Apenas 3,5 por cento do total de florestas é manejada de forma sustentável. Menos de 1% tem tem algum tipo de certificação. Porém o espaço destinado para conservação da diversidade biológica está aumentando e quase 200 milhões de hectares de florestas (18%) na Amazônia, Congo e Sudeste Asiático estão demarcados como áreas protegidas.

“Infelizmente mercados que remuneram tais serviços, onde eles existem, continuam na sua infância. Em face de pressões econômicas e sociais para converter terras florestadas para outros fins”, diz o relatório, assinado pelos representantes da FAO, Eduardo Rojas-Briales, e da ITTO, Emmanuel Ze Meka. “É essencial que todos os valores das florestas tropicais sejam reconhecidos e adequadamente recompensados para promover sua conservação e o manejo sustentável”, continua o texto.

Redução da pobreza

Para o Programa Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), as florestas podem ajudar a reduzir a pobreza no mundo. Em um relatório apresentado no mês de junho, o Pnuma calcula que acrescentar US$ 40 bilhões por ano ao que já é investido no setor florestal poderia criar milhões de empregos, e ao mesmo tempo reduzir pela metade o desmatamento até 2030 e aumentar o plantio de árvores em até 140% até 2050.

O valor equivale a dois terços do que é investido atualmente e poderia também aumentar em 28% a quantidade de carbono retirada hoje da atmosfera pelas florestas. Para o diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner, investimentos no setor florestal podem ajudar a transição para uma economia que emita menos carbono. "A iniciativa Green Economy identificou o setor florestal como um dos dez capazes de impulsionar a transição para uma baixa emissão de carbono", afirma.

A iniciativa da Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade (TEEB, em inglês), que inclui os oito países mais ricos do mundo e as cinco maiores economias em desenvolvimento, já calculou por exemplo que os danos provocados pelo homem à natureza em todo o mundo podem custar entre entre US$ 2 trilhões e US$ 4 trilhões. O relatório preliminar da TEEB, que deve dar uma visão mais ampla sobre o valor da conservação, e das florestas, será apresentado em junho do ano que vem, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio + 20).

No território brasileiro também estão sendo realizados estudos semelhantes. A TEEB Brasil é realizada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Pnuma e Conservação Internacional do Brasil. "O que se espera do estudo e uma maior eficiência e coerência na gestão dos recursos naturais do Brasil, contribuindo para o desenvolvimento local e regional", explicou o secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Dias.

O desafio é mostrar que para desenvolver a região não é necessário destruir a floresta. Aliás, o desmatamento não tem contribuído para que a Amazônia, por exemplo, se torne mais desenvolvida. Higuchi destaca que 70 milhões de hectares de florestas brasileiras já foram desmatados, sem que gerassem desenvolvimento. Ele defende que estas áreas podem ser aproveitadas para a produção, sem que o desmatamento continue. “Mesmo que a gente venha a proteger só por proteger, sem buscar resultados econômicos, já estamos mantendo a biodiversidade. Mesmo não tendo resultados hoje, as gerações futuras vão nos agradecer a gente”.

Fonte: O Eco

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